É pra rir?

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ou: “As comédias da temporada 2013/14 da TV americana”

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Agora que acabou “Breaking Bad” já podemos falar de outras coisas, né? Assim, nada mais apropriado pra dar uma movimentada nesse blog do que falar da nova safra de séries que começaram a estrear na TV americana desde meados de setembro. A chamada “fall season” (temporada de outono) é sempre marcada por dezenas de novidades nas cinco principais emissoras abertas dos EUA, além, claro, das temporadas novas de séries já estabelecidas. Todo ano é a mesma coisa: elas estreiam, algumas vão tão mal de audiência que não duram sequer três episódios, outras vão sobrevivendo aos trancos e barrancos até serem canceladas no semestre seguinte, e algumas poucas sortudas tornam-se grandes (ou pequenos) sucessos e são renovadas para novas temporadas.

Desta vez resolvi começar pelas comédias e já escolhi as três que valem a pena seguir e torcer pra que durem pelo menos uma temporada completa – vale lembrar que ano passado (um ano bem fraco, diga-se de passagem) eu escolhi duas e ambas duraram pelo menos a temporada inteira: “The Mindy Project” foi renovada e “Go On”, infelizmente, teve que se contentar com uma temporada só (coitado do Matthew Perry, o cara não tem sorte mesmo).

Minhas três preferidas são estas aqui, em ordem de preferência e com a minha nota ao final:

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1) “Brooklyn Nine-Nine” (FOX)

Confesso que não estava botando muita fé nessa série. Andy “Dick In a Box” Samberg fazendo um policial? E ainda por cima competente? No way! Mas só o teaser do piloto já foi mais engraçado que muita comédia de respeito que tem por aí. Ok, as piadas físicas estilo pastelão (por exemplo, a perseguição no mercadinho com direito a cara enfiada nos potes de sorvete do piloto) são totalmente dispensáveis, mas nada que comprometa a qualidade da série, que tem uma vibe meio “The Office” e “Parks and Recreation” (afinal, é uma comédia sobre um ambiente de trabalho e é escrita pelos criadores da segunda), meio “Os Outros Caras” (aquele filme com o Will Ferrell e o Mark Wahlberg como uma dupla policial). O ótimo elenco ainda tem o venerando Andre Braugher (“Duets”, “Last Resort”) como o chefe-de-polícia sério e gay e coadjuvantes de peso, em alguns casos literalmente, como Terry Crews (“Todo Mundo Odeia o Chris”, “Os Mercenários”). Samberg é o “tira” rebelde mas eficiente que vive competindo com a policial vivida pela atriz Melissa Fumero pra ver quem prende mais criminosos. Mas a chegada de um novo chefe (Braugher, que brinca com a própria persona criada nos vários anos que passou protagonizando o drama “Homicídio: a Vida nas Ruas”) vai (quem sabe?) por um fim nas palhaçadas do rapaz. É pouco provável que os casos investigados na série cheguem à seriedade de um “C.S.I.” (até agora houve roubo de loja de eletrônicos, assassinato de traficante de presunto, um vândalo que desenha pintos nas viaturas de polícia), mas se o resto da temporada mantiver o nível dos dois primeiros episódios (e os comentários são de que a coisa só melhora), tem tudo pra ser a comédia do ano. A-

brooklyn-nine-nine

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2) “The Crazy Ones” (CBS)

Sem dúvida a série de maior pedigree da temporada. Criada pelo David E. Kelley (“Ally McBeal”, “Boston Legal”, “Chicago Hope”), que na minha opinião é o melhor roteirista da TV americana depois do Aaron Sorkin, ainda tem a proeza de trazer de volta à TV o grande Robin Williams, ausente da telinha desde “Mork & Mindy” nos anos 80, e a eterna “Buffy” Sarah Michelle Gellar, que não estava longe da TV há tanto tempo assim (só dois anos, quando ela fez a fracassada “Ringer”) – eles fazem pai e filha que são donos de uma agência de publicidade em Chicago. O grande destaque por enquanto, porém, não é nenhum dos dois, mas sim James Wolk, o Bob Benson de “Mad Men”, que rouba as cenas de todo mundo, inclusive do poderoso Williams em uma musiquinha improvisada. Mesmo não tendo nenhuma grande piada, o que dependendo do caso pode ser fatal pra uma comédia (mas não parece ser o caso aqui, pelo menos por enquanto), o primeiro episódio é bem consistente e apresenta um pouco da dinâmica da agência: Sarah e o personagem do Hamish Linklater (“The Newsroom”) tocam os projetos e tem a maior parte das ideias, Williams é o gênio em crise que tem lampejos da velha forma e Wolk é o bonitão que consegue tudo na base do charme. Quando o principal cliente da agência, o McDonald´s, ameaça pular fora, eles precisam criar uma campanha infalível – e a ideia vem do velho, com uma ajudinha dos cabelos da assistente vivida pela ótima Amanda Setton (“Gossip Girl”) e da cantora Kelly Clarkson (em participação especial). Não é hilário, mas é bem divertido, o que hoje em dia já quer dizer muito. B+

the crazy ones

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3) “The Michael J. Fox Show” (NBC)

Essa é daquelas séries que ganham mais pelo coração do que pelas gargalhadas. É a primeira vez que o eterno Marty McFly encara um papel fixo numa série desde que largou “Spin City” pra se tratar do Mal de Parkinson nos anos 90 (desde então ele só vinha fazendo participações especiais eventuais em séries como “The Good Wife”  e “Boston Legal”). E é justamente a doença um dos motes aqui: ele faz um adorado âncora de TV que decide abandonar a carreira bem-sucedida depois de literalmente “passar do ponto” em frente às câmeras, mas que decide voltar ao trabalho depois de cinco anos apenas cuidando da família. O primeiro episódio mostra justamente esta decisão dele, ainda que com alguma relutância, de retomar a carreira profissional, e o foco é bem mais no lado sentimental do que no engraçado. Já no segundo as piadas começam a aflorar (ainda que nem sempre de forma tão eficiente), com o personagem voltando efetivamente à ativa e conhecendo uma vizinha gostosona (vivida pela Tracy Pollan, mulher do ator na vida real). Fox está bem à vontade (e aparentemente se divertindo muito ao tirar sarro da própria doença) e o elenco é bem bacana: a esposa é feita pela ótima Betsy Brandt, recém-saída de “Breaking Bad”, e os filhos são bem simpáticos, ao contrário da maioria das comédias do gênero. Enfim, tudo parece estar quase no lugar certo pra divertir e comover ao mesmo tempo. De novo (assim como em “The Crazy Ones”), faltam piadas de peso, mas isso é coisa que deve vir com o tempo. B-

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O RESTO:

As outras comédias que estrearam agora ou não me interessaram o suficiente (“The Goldbergs”) ou já estão tão mal-faladas que devem ser canceladas bem rápido (“Dads”, “We Are Men”) ou ainda não estrearam (“Super Fun Night”, com a Rebel Wilson, que eu quero muito ver, “Sean Saves the World”, pra qual eu vou dar uma chance só por causa da Megan Hilty, e “The Millers”, com o Will Arnett). Gostei de “Trophy Wife”, que apesar da premissa boba e batida (mulher casa com homem bem mais velho e tem que conviver com os filhos e as ex-mulheres do cara) tem um elenco excelente (Malin Akerman, Bradley Whitford, Marcia Gay Harden, Michaela Watkins) e um primeiro episódio bem engraçado – mas os rumores de cancelamento prematuro já estão rolando, então vou esperar pra ver se vale a pena seguir. Comecei a ver “Mom” predisposto a não gostar, já que ando de bode do Chuck Lorre, um dos criadores da série (e de “Big Bang Theory”, “Two and a Half Men” e “Mike & Molly”), e crente que a Anna Faris estaria no “modo retardada” que ela liga na maioria dos papeis que faz (únicas exceções: “Encontros e Desencontros” e a série “Entourage”). O piloto é até que divertido: a atriz está surpreendentemente contida, a filha parece uma mini Rachel McAdams, o molequinho é fofo, a Allison Janney é sempre ótima e ainda tem o Badger de “Breaking Bad” fazendo praticamente o mesmo papel. Mas o segundo episódio já me deu preguiça e eu nem assisti inteiro. Ou seja, acho que não vai rolar, a menos que a série se torne um grande sucesso. Vi também as estreias de “Back in the Game” e “Welcome to the Family”, mas não pretendo segui-las, já que ambas são mais do mesmo, ainda que tenham atores do nível de um James Caan (no caso da primeira) e de uma Mary McCormack (no caso da segunda).

RYAN LEE, BAILEE MADISON, MARCIA GAY HARDEN, BRADLEY WHITFORD, MALIN AKERMAN, NATALIE MORALES, MICHAELA WATKINS, ALBERT TSAI

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ENQUANTO ISSO, NA HBO…

hello ladiesMudando das redes abertas pros canais a cabo, a HBO americana finalmente estreou a excelente “Hello Ladies”, escrita e protagonizada pelo Stephen Merchant, parceiro habitual do Ricky Gervais (“The Office”, “Extras” etc.). Desta vez Merchant trocou o ex-gordo Gervais pelo ainda gordo Nate Torrence (“Agente 86”) e pelo baixinho Kevin Weisman (“Alias”) como três amigos tentando conquistar a mulherada na noite de Los Angeles, com direito a muita vergonha alheia e ótimas piadas. Essa vale a pena seguir.

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EM TEMPO:

A cena que mais me fez rir recentemente ficou a cargo da Dreama Walker literalmente rolando na grama em um dos episódios finais de “Don´t Trust the Bitch in Apartmente 23” que eu ainda não tinha visto (o 2×13). Que pena que essa série foi cancelada pelos energúmenos da ABC.

Sobre rodrigohaddad

Rodrigo Haddad é advogado, escritor, ator e diretor de teatro
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3 respostas para É pra rir?

  1. Ricardo Crestoni disse:

    Caramba, eu estava discutindo exatamente isso ontem com os amigos, como nenhuma série nova de comédia engrena comigo. Recentemente, arrisquei o MJ Fox e o Veep, mas não deu. A mais nova que acompanho é o Community, que vai para a quinta temporada. Será que o mundo desaprendeu a fazer comédia, a gente que já viu tudo e ficou mais exigente, ou as TVs que estão com medo de ousar além das piadas coxinhas com açúcar?

    • rodrigohaddad disse:

      Comédia no sentido de rolar de rir tá difícil mesmo, hoje em dia o foco é nos dramas e nas “dramédias” tipo “Girls”, “House of Lies” e afins. “Community” é sensacional, “Veep” também, e “30 Rock” já deixou saudade (pra mim as 3 melhores dos últimos anos). Vamos ver se alguma dessas novas engrena.

  2. Pingback: É pra rir? – parte 2 (ou: o resto das comédias da fall season) | Temporada Nova

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