Um espelho para o lado negro da modernidade (ATUALIZADO)

black mirror

Descobri esse fim-de-semana uma série britânica que pode ser descrita no mínimo como perturbadora. “Black Mirror”, produção do Channel 4 inglês criada pelo jornalista e escritor Charlie Brooker, estreou em 2011 com uma primeira temporada de três episódios e teve uma segunda leva de mais três capítulos no início desse ano. Cada episódio conta uma história única com começo, meio e fim, com elencos e diretores diferentes, mas o tema sempre tem a ver com algum avanço moderno tecnológico que já existe ou que está muito perto de existir.

Assim, no sensacional primeiro episódio da temporada inicial, entitulado “The National Anthem“, a princesa britânica é sequestrada e o criminoso divulga um vídeo no YouTube no qual pede, como resgate, que o primeiro-ministro (o ótimo Rory Kinnear, da fase Daniel Craig do “007”) faça sexo com uma porca de verdade em frente às câmeras, com transmissão ao vivo. Será que ele se sujeitará a isso para salvar a moça? O que o público, que acompanha tudo pelas redes sociais, acha disso? No segundo, “Fifteen Million Merits” (ligeiramente inferior ao primeiro e um pouco longo demais, mas ainda assim excelente), num futuro que é uma mistura de “1984”, “Wall-E” e “O Preço do Amanhã”, as pessoas vivem em quartos feitos de telas “touch” e passam o tempo em bicicletas ergométricas, alimentando o “sistema” e acumulando pontos que podem ser utilizados para comprar comida pasteurizada, roupas e acessórios para suas versões virtuais, assistir programas pornográficos ou que tiram sarro de gordos e, quem sabe um dia, participar de uma espécie de “American Idol”. Até que um jovem (Daniel Kaluuya, da versão pro cinema da peça “Chatroom”) se apaixona por uma garota que canta muito bem (Jessica Brown Findlay, a Lady Sybil de “Downton Abbey”) e a convence a se arriscar no programa (um dos jurados é o Rupert Everett incorporando uma versão bizarra do Simon Cowell). Finalmente, o terceiro, “The Entire History of You“, o melhor de todos e exercitando ao extremo a paranoia, começa parecendo que vai falar de uma coisa mas muda completamente o rumo um pouco antes da metade, em um mundo onde temos um chip implantado atrás da orelha que acumula todas as nossas memórias e uma espécie de controle-remoto que nos permite acessá-las a hora que quisermos (o que parece ser algo incrível mas, como o título original já dá a entender, pode ter aplicações que… bom, é melhor não revelar nada pra não estragar o episódio). O protagonista (Toby Kebbell, de “Rock n´Rolla” e “Fúria de Titãs 2”) trabalha numa firma de advocacia que quer começar a usar as memórias gravadas no chip para que filhos processem seus próprios pais por não os terem incentivado o suficiente na infância e adolescência. Mas é quando ele vai a uma festa encontrar a esposa (Jodie Whittaker, de “Ataque ao Prédio” e “Vênus”) que a trama realmente se revela.

É difícil classificar a série em termos de gênero; se fosse pra escolher um, seria algo próximo do suspense com toques de ficção-científica e terror psicológico. Mas o grande lance é que a série critica esse lado negro dos avanços tecnológicos, mostrando situações que ou são bastante possíveis nos dias de hoje (imagine a situação do primeiro episódio potencializada ao extremo graças ao compartilhamento infinito permitido pelas redes sociais) ou não estão tão longe assim de se tornar realidade. E por isso é difícil não ficar abalado ou passar incólume pelos episódios. Vale muito a pena assistir.

P.S.: Ainda não vi a segunda temporada, mas comentarei aqui quando conseguir assistir.

UPDATE: O primeiro episódio da segunda temporada, “Be Right Back“, é o mais bizarro de todos. Imagine se fosse possível recriar virtualmente uma pessoa que morreu, com base em todos os registros daquela pessoa encontrados online (perfis nas redes sociais, tweets, posts no Facebook etc.)? Pois é isso que acontece quando uma mulher perde o marido e uma amiga apresenta a ela o “serviço”. Creepy é pouco pra descrever o episódio, que tem uma atuação impressionante da Hayley Atwell (de “A Duquesa” e “Capitão América”) no papel da “viúva” (curiosidade: o ator Dohmnall Gleeson, que faz o marido, é filho do grande Brendan Gleeson e fez o Bill Weasley nos últimos filmes do “Harry Potter”).

Sobre rodrigohaddad

Rodrigo Haddad é advogado, escritor, ator e diretor de teatro
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