O artista e sua arte: são independentes ou é tudo uma coisa só?

O episódio de “Glee” dessa semana (4×17) teve como título “Guilty Pleasures” e era sobre aquelas coisas das quais a gente gosta mas tem vergonha de admitir. Como a série é musical, o foco foi maior em gostos musicais duvidosos, claro. Mas não é sobre o episódio em si que eu quero falar – embora a seleção de músicas tenha sido uma das melhores desde a primeira temporada, indo de Barry Manilow e Phil Collins às Spice Girls e ao Abba, passando pelo Wham! e com uma exceção ao “tema do dia”: “Creep”, do Radiohead, em uma das versões mais belas e arrepiantes que a série já fez até hoje (a cargo de Lea Michelle e do novato Dean Geyer).

O que me trouxe aqui na verdade foi uma questão, digamos, filosófico-moralista levantada no episódio: um dos rapazes do grupo (vivido pelo ator Jacob Artist, outro novato da série) escolhe uma “canção” do rapper Chris Brown e é duramente criticado por todas as meninas. “Como assim? Ele bateu na Rihanna! Ele escreve coisas machistas no Twitter!! Ele brigou com o Frank Ocean por uma vaga no estacionamento!!! Ele tatuou o rosto de uma mulher espancada no próprio pescoço!!!!”. O menino responde que não concorda com as atitudes do cantor, mas que gosta de algumas músicas dele, e que se deve separar o artista da “arte” que ele faz – afinal, cantoras como Britney Spears e a própria Rihanna também estão longe de serem modelos de conduta e ainda assim são adoradas. No fim ele acaba optando por uma canção de outro Brown, o Bobby, e é criticado mais uma vez – ele não sabia que o Brown mais velho também não é flor que se cheire e foi supostamente o responsável por “viciar” a esposa Whitney Houston em crack.

Eu não suporto o Chris Brown, seja pelas atitudes e comportamento dele extra-palco, seja pela música dele, que eu acho muito ruim. Mas tem muita gente que gosta – até Grammy o cara já ganhou. O ponto não é esse. O fato é que eu comecei a pensar na grande questão por trás de tudo isso: devemos realmente separar o artista da arte que ele produz? A vida e o comportamento pessoal de um cantor, ator, escritor, cineasta, devem afetar o modo como vemos e admiramos o trabalho dele? Se a resposta for sim, não há problema algum em se gostar da música do Chris Brown, ainda que ele seja um escroto. Se, por outro lado, a resposta for negativa, então não podemos assistir os filmes do Roman Polanski ou do Mel Gibson, por exemplo, já que o primeiro foi condenado por transar com uma menor nos anos 70 e o segundo vira e mexe faz declarações antissemitas, racistas e afins.

Qual é a resposta correta? Eu não sei. Só sei que é uma questão bastante delicada e que deve suscitar diversos entendimentos (fiquem à vontade pra deixar a opinião de vocês nos comentários aqui embaixo). Sei também que eu vou continuar odiando o Chris Brown, achando o Polanski um gênio e gostando dos filmes do Mel Gibson que são bons e não gostando dos que são ruins.

Glee Spice Girls(as meninas imitando as Spice Girls)

***

Em tempo: falando em guilty pleasure, eu adoro o Barry Manilow desde moleque e, ao contrário do Sam de “Glee” (o ator Chord Overstreet, que aliás vem constantemente sendo o grande destaque da série e já merece uma indicaçãozinha ao Emmy), não tenho a menor vergonha de admitir isso.

Sobre rodrigohaddad

Rodrigo Haddad é advogado, escritor, ator e diretor de teatro
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8 respostas para O artista e sua arte: são independentes ou é tudo uma coisa só?

  1. Aline disse:

    Acho que o artista e a arte são independentes! Às vezes você não se identifica com o artista, mas se identifica com trabalho dele. Eu por exemplo acho a Taylor Swift meio boring como pessoa, mas sempre me pego cantando alguma musiquinha dela! rs

  2. Malu disse:

    Ro, assisti hj esse episódio e me peguei pensando na mesma coisa!
    Difícil! Acho q esse é o tipo de coisa que esbarra nos nossos valores..nos negociáveis e nos nao negociáveis, que todos temos!
    Por isso, acho que dependendo da questão e o qto ela nos fere, vc meio que perdoa.. Mas se no teu julgamento o “crime” for muito grave, ai nao passa.
    Enfim.. Difícil!
    Eu, por exemplo, depois de tudo, nao sei como alguém ainda paga pra assistir um show do Belo (apenas esclarecendo q, apesar de eu ter um gosto musical julgado como duvidoso por muitos rs, eu ODEIO as musicas do Belo! Mas foi o exemplo tupiniquim q pude pensar).
    Mas eu tenho muitos valores nao negociáveis.. Tem gente q nem conhece seus próprios valores.

  3. Ma Berg disse:

    Acho que a maioria dos genios (quaisquer que sejam os tipos de arte ou ciencia que eles se arrisquem) tem um lado sombrio/atrapalhado/tosco… Até pra compensar sua genialidade, afinal não se pode ser genial em tudo. Se isso for verdade, então dificilmente teríamos uma identificação plena com uma personalidade. Acho que é possível admirar o jeito ou valores de uma pessoa e não gostar da obra dela (me ocorreu o nome da Ivete Sangalo, por exemplo…) ou abominar qualquer atitude de um ser mesmo adorando sua produção artística/científica (tive alguns professores uspianos que se enquadram aqui, eu lia e adorava o cara, mas ao vivo eram péssimos!) Enfim, tudo isso pra dizer que acredito sim, Rô, na independênci entre criatura e criador.
    PS: Gostei do post! (o que segundo esta teoria nāo significa necessariamente que eu goste de vc😉 rsrsrs)
    Bjs

  4. Alexandre Ogata disse:

    Acho que um artista é fruto do ambiente em que vive, de sua técnica e de suas referências. Sua arte depende disso. Suas atitudes não artísticas pouco me importam. Acho que o que dificulta dissociar uma coisa da outra hoje em dia é que vivemos em uma sociedade tão midiática que nem sabemos exatamente se a música do Chris Brown é sua vida ou se bater na Rihanna é sua arte.

  5. rodrigohaddad disse:

    Todos argumentos válidos. Acho que devemos separar o artista da arte, sim – mas quanto melhor e mais genial a arte é, mais fácil fica fazer essa separação. Por isso é tão fácil admirar o Polanski e odiar o Belo e o Chris Brown…haha

  6. Alice Martins disse:

    Também acho que arte e artista são independentes. Nunca saberemos se todas as atitudes ‘ruins’ ou decisões erradas não foram exatamente o que levaram/impulsionaram/inspiraram o artista a produzir sua masterpiece e por que não a ser uma pessoa melhor… E aliás, artista tem que ser certinho agora? Acreditar e defender somente o politicamente correto? Claro que não né… São seres humanos, no final das contas, como todos nós.

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